João Massena, espírito extremamente dedicado aos enfermos, desde alguns anos após a desencarnação dirigia um grupo de companheiros em grande cidade, esmerando-se na plantação das idéias libertadoras do Espiritismo. Respeitado e querido, entre aqueles que lhe recebiam a generosidade, ampliava constantemente a própria área de ação, Invocado carinhosamente, aqui e ali, prestava serviços preciosos, angariando tesouros de cooperação e simpatia. Aplicava o Evangelho, com raro senso de oportunidade, sustentava infelizes, protegia desesperados e sabia orientar o concurso de vários médicos desencarnados, em favor dos doentes, especializando-se, sobretudo, no socorro aos processos obsessivos.
Massena apoiava o grupo de amigos encarnados e o grupo apoiava Massena, com tal segurança de entendimento e trabalho, que prodígios se realizavam constantemente.
As tarefas continuavam sempre animadoras, quando surgiu para João certo caso aflitivo. Jovem destinada a importantes edificações mediúnicas jazia em casa, trancada entre quatro paredes e vigiada por Espíritos impossíveis, interessados em cobrar-lhe algumas dívidas do passado culposo. Benfeitores da Vida Maior amparavam-na; perseguidores que lhe tramavam a perda.
Prestigiado pelos poderes Superiores, Massena estudou a melhor maneira de acordá-la para as responsabilidades de que se achava investida e percebeu que, para isso, bastaria aparecesse alguém capaz de lhe excitar a memória para o retorno ao equilíbrio, alguém que falasse a ela com respeito à fé raciocinada, à crença lógica, à imortalidade da alma e à vida espiritual.
A jovem, contudo, sob a provação da riqueza amoedada, sofria a desvantagem de não precisar sair do estreito recinto doméstico e, à face disso, encontrava maior empeço para largar a si própria.
A pouco e pouco, dominada por entidades vampirizadoras, entregou-se ao vício do álcool e, quase anulada que lhe foi a resistência, permitiu que essas mesmas criaturas perturbadas lhe assoprassem a sugestão de um crime a ser perpetrado na pessoa de um parente próximo. Conquanto reagisse, a pobrezinha estava quase cedendo à insanidade, à delinquência. João, aflito, reconheceu o estado de alarma. A moça, no entanto, não se ausentava de casa, não recebia visitas, não recorria a leituras e ignorava o poder da prece. Mentalmente intoxicada, tomava rumo sinistro, quando Massena descobriu algo. A infortunada menina gostava de televisão, que se lhe fizera o único meio de contacto com o mundo exterior. Porque não auxiliá-la através de semelhante recurso? O abnegado amigo espiritual pôs-se em campo e, repartindo apelos mentais, em setores diversos, conseguiu articular providências, até que um amigo lhe aceitou a inspiração e veio ao grupo com um projeto entusiástico. Esse “projeto entusiástico” não era outra coisa senão o interesse de Massena no salvamento da jovem. E o visitante, sob o influxo dele, fez veemente no tranquilo cenáculo, convidando o conjunto a aproveitar uma oportunidade que obtivera em determinado canal. Conseguira vinte minutos para assunto espírita numa televisora respeitável. O grupo representar-se-ia, por alguns dos componentes mais categorizados, daí a quatro dias – uma sexta-feira às dez da noite -, para comentar ligeiros aspectos de mediunidade e Doutrina Espírita. O ofertante, após anotações de jubiloso otimismo, concluiu explicando que necessitava de ajustes urgentes. Queria, de imediato, o nome do companheiro decidido a falar, antes de atender a instruções de autoridades e estabelecer minudências.
Os nove companheiros, ali reunidos, não sintonizavam, porém, naquela onda de expectação fervorosa.
Lara, o diretor de maior responsabilidade, ponderou:
- Ora! Ora! O Espiritismo não precisa de televisão. Temos as nossas casas de ensino... Entretanto, coloco o assunto ao critério dos irmãos...
O recém-chegado, expressando-se por si e pelo benfeitor espiritual que o envolvia em pensamentos de esperança, repostou:
- Sem dúvida, o templo espírita é o lar da palavra doutrinária, mas isso não nos impede de comentar os princípios espíritas, em benefício da Humanidade, seja no rádio ou na imprensa, na rua ou no salão. Se fôssemos falar acerca do bem apenas nos instintos de fé religiosa, deixaríamos ao mal campo livre, terrivelmente livre...
O judicioso apontamento, contudo, não vingou.
Delcides, comentarista inteligente da equipe, aduziu:
- Sou contra. Eu não iria à televisão, de modo algum. Considero isso pura vaidade.
Antônio Pinho, orador competente, anuiu:
- De minha parte, não tenho coragem de me entregar a semelhante exibição...
Meira, verbo seguro e visão firme, comentou, seco:
- Nem eu.
E os demais cinco ajuntaram:
- Decididamente, ir à televisão falar de Espiritismo não está certo...
- Penso de igual modo. Quem quiser aprender Doutrina Espírita, venha às reuniões...
- Eu também não poderia concordar...
- Não sou de teatro...
- O assunto esta fora de cogitação...
Encerrou-se o entendimento e o ofertante afastou-se, desapontado.
Curiosos, visitamos a jovem obsidiada, justamente na data para a qual Massena lhe previa o suspirado auxílio. Eram dez horas da noite, na sexta-feira referida, e fomos achá-la sentada à frente do vídeo.
Os minutos que seriam reservados aos comentários em torno do Espiritismo estavam sendo aplicados num festivo programa de exaltação ao uísque e, perplexos, fitamos o simpático sorriso de tele-atriz que convidava:
- Beba a nova marca! Uma delícia!...
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quarta-feira, 18 de agosto de 2010
terça-feira, 3 de agosto de 2010
PUREZA EM BRANCO
Quando Anésio Fraga deixou o corpo físico, ele, que fora sempre considerado puro entre os homens, atingiu a Fronteira do Mundo Espiritual à semelhança de um lírio, tal a brancura de sua bela vestimenta.
Pretendia viver nas Esferas Superiores, respirar o clima dos anjos, alçar-se às estrelas e comungar a presença do Cristo - explicou ao agente espiritual que o atendia ao policiamento da passagem para os excelsos Planos da Espiritualidade.
O zeloso funcionário, contudo, embora demonstrasse profundo respeito para com a sua apresentação, submeteu-o a longo teste, findo o qual, não obstante desapontado, explicou que lhe não seria possível avançar.
Faltavam-lhe requisitos para maior ascensão.
- Eu? Eu? - gaguejou Anésio, aflito.
- Como pode ser isso?
Fui na Terra um homem que observou todas as regras do Santo Caminho.
- Apesar de tudo. - falou o fiscal, reticencioso.
- Não me conformo, não me conformo! - reclamou o candidato à glória divina.
E sacando do bolso uma lista, exclamou agastado:
- Pensando na hipótese de alguma desconsideração, resumi em dez itens o meu procedimento irrepreensível no mundo.
E leu para o benfeitor calmo e atento:
- Respeitei todas as religiões.
- Cultivei o dom da prece.
- Acreditei no poder da caridade.
- Nunca aborreci os meus semelhantes.
- Confiei sempre no melhor
- Calei toda palavra ofensiva ou desrespeitosa.
- Calculei todos os meus passos.
- Jamais procurei os defeitos do próximo.
- Evitei o contato com todas as pessoas viciadas.
- Vivi em minha casa preocupado em não ser percalço na estrada alheia.
O mordomo da Grande Porta, no entanto, sorriu e comentou:
- Fraga, você leu as afirmações, esquecendo as demonstrações.
- Como assim?
O amigo paciente apanhou a ficha e esclareceu que o Plano
Espiritual possuía também apontamentos para confronto e solicitou-lhe a releitura da lista.
E seguiu-se curioso diálogo entre os dois.
Principiou Anésio:
- Respeitei todas as religiões.
E o examinador acentuou, conferindo as anotações:
- Mas não serviu a nenhuma.
- Cultivei o dom da prece.
- Somente em seu próprio favor.
- Acreditei no poder da caridade.
- Todavia, não a praticou.
- Nunca aborreci os meus semelhantes.
- Entretanto, não auxiliou a quem quer que fosse.
- Confiei sempre no melhor.
- Mas apenas em seu benefício.
- Calei toda palavra ofensiva ou desrespeitosa.
- Não se lembrou, porém, de falar aquelas que pudessem amparar os necessitados de consolo e esperança.
- Calculei todos os meus passos.
- Para não ser molestado.
- Jamais procurei os defeitos do próximo.
- Contudo, não lhe aproveitou os bons exemplos.
- Evitei o contato com todas as pessoas viciadas.
- Atendendo ao comodismo.
- Vivi em minha casa preocupado em não ser percalço na estrada alheia.
- Simplesmente para não ser chamado a tarefa de auxílio.
Anésio, desencantado, silenciou, mas o benfeitor esclareceu, sem afetação:
- Meu amigo, meu amigo!
Não basta fugir ao mal.
É preciso fazer o bem.
Você movimenta-se em branco, veste-se em branco, calça em branco e brilha em branco, mas a existência na Terra passou igualmente em branco.
Volte e viva!
Angustiado, Anésio perdeu o próprio equilíbrio e rolou da Altura na direção da Terra.
Pretendia viver nas Esferas Superiores, respirar o clima dos anjos, alçar-se às estrelas e comungar a presença do Cristo - explicou ao agente espiritual que o atendia ao policiamento da passagem para os excelsos Planos da Espiritualidade.
O zeloso funcionário, contudo, embora demonstrasse profundo respeito para com a sua apresentação, submeteu-o a longo teste, findo o qual, não obstante desapontado, explicou que lhe não seria possível avançar.
Faltavam-lhe requisitos para maior ascensão.
- Eu? Eu? - gaguejou Anésio, aflito.
- Como pode ser isso?
Fui na Terra um homem que observou todas as regras do Santo Caminho.
- Apesar de tudo. - falou o fiscal, reticencioso.
- Não me conformo, não me conformo! - reclamou o candidato à glória divina.
E sacando do bolso uma lista, exclamou agastado:
- Pensando na hipótese de alguma desconsideração, resumi em dez itens o meu procedimento irrepreensível no mundo.
E leu para o benfeitor calmo e atento:
- Respeitei todas as religiões.
- Cultivei o dom da prece.
- Acreditei no poder da caridade.
- Nunca aborreci os meus semelhantes.
- Confiei sempre no melhor
- Calei toda palavra ofensiva ou desrespeitosa.
- Calculei todos os meus passos.
- Jamais procurei os defeitos do próximo.
- Evitei o contato com todas as pessoas viciadas.
- Vivi em minha casa preocupado em não ser percalço na estrada alheia.
O mordomo da Grande Porta, no entanto, sorriu e comentou:
- Fraga, você leu as afirmações, esquecendo as demonstrações.
- Como assim?
O amigo paciente apanhou a ficha e esclareceu que o Plano
Espiritual possuía também apontamentos para confronto e solicitou-lhe a releitura da lista.
E seguiu-se curioso diálogo entre os dois.
Principiou Anésio:
- Respeitei todas as religiões.
E o examinador acentuou, conferindo as anotações:
- Mas não serviu a nenhuma.
- Cultivei o dom da prece.
- Somente em seu próprio favor.
- Acreditei no poder da caridade.
- Todavia, não a praticou.
- Nunca aborreci os meus semelhantes.
- Entretanto, não auxiliou a quem quer que fosse.
- Confiei sempre no melhor.
- Mas apenas em seu benefício.
- Calei toda palavra ofensiva ou desrespeitosa.
- Não se lembrou, porém, de falar aquelas que pudessem amparar os necessitados de consolo e esperança.
- Calculei todos os meus passos.
- Para não ser molestado.
- Jamais procurei os defeitos do próximo.
- Contudo, não lhe aproveitou os bons exemplos.
- Evitei o contato com todas as pessoas viciadas.
- Atendendo ao comodismo.
- Vivi em minha casa preocupado em não ser percalço na estrada alheia.
- Simplesmente para não ser chamado a tarefa de auxílio.
Anésio, desencantado, silenciou, mas o benfeitor esclareceu, sem afetação:
- Meu amigo, meu amigo!
Não basta fugir ao mal.
É preciso fazer o bem.
Você movimenta-se em branco, veste-se em branco, calça em branco e brilha em branco, mas a existência na Terra passou igualmente em branco.
Volte e viva!
Angustiado, Anésio perdeu o próprio equilíbrio e rolou da Altura na direção da Terra.
terça-feira, 4 de maio de 2010
PUREZA EM BRANCO
Quando Anésio Fraga deixou o corpo físico, ele, que fora sempre considerado puro entre os homens, atingiu a Fronteira do Mundo Espiritual à semelhança de um lírio, tal a brancura de sua bela vestimenta.
Pretendia viver nas Esferas Superiores, respirar o clima dos anjos, alçar-se às estrelas e comungar a presença do Cristo - explicou ao agente espiritual que o atendia ao policiamento da passagem para os excelsos Planos da Espiritualidade.
O zeloso funcionário, contudo, embora demonstrasse profundo respeito para com a sua apresentação, submeteu-o a longo teste, findo o qual, não obstante desapontado, explicou que lhe não seria possível avançar.
Faltavam-lhe requisitos para maior ascensão.
- Eu? Eu? - gaguejou Anésio, aflito.
- Como pode ser isso?
Fui na Terra um homem que observou todas as regras do Santo Caminho.
- Apesar de tudo. - falou o fiscal, reticencioso.
- Não me conformo, não me conformo! - reclamou o candidato à glória divina.
E sacando do bolso uma lista, exclamou agastado:
- Pensando na hipótese de alguma desconsideração, resumi em dez itens o meu procedimento irrepreensível no mundo.
E leu para o benfeitor calmo e atento:
- Respeitei todas as religiões.
- Cultivei o dom da prece.
- Acreditei no poder da caridade.
- Nunca aborreci os meus semelhantes.
- Confiei sempre no melhor
- Calei toda palavra ofensiva ou desrespeitosa.
- Calculei todos os meus passos.
- Jamais procurei os defeitos do próximo.
- Evitei o contato com todas as pessoas viciadas.
- Vivi em minha casa preocupado em não ser percalço na estrada alheia.
O mordomo da Grande Porta, no entanto, sorriu e comentou:
- Fraga, você leu as afirmações, esquecendo as demonstrações.
- Como assim?
O amigo paciente apanhou a ficha e esclareceu que o Plano
Espiritual possuía também apontamentos para confronto e solicitou-lhe a releitura da lista.
E seguiu-se curioso diálogo entre os dois.
Principiou Anésio:
- Respeitei todas as religiões.
E o examinador acentuou, conferindo as anotações:
- Mas não serviu a nenhuma.
- Cultivei o dom da prece.
- Somente em seu próprio favor.
- Acreditei no poder da caridade.
- Todavia, não a praticou.
- Nunca aborreci os meus semelhantes.
- Entretanto, não auxiliou a quem quer que fosse.
- Confiei sempre no melhor.
- Mas apenas em seu benefício.
- Calei toda palavra ofensiva ou desrespeitosa.
- Não se lembrou, porém, de falar aquelas que pudessem amparar os necessitados de consolo e esperança.
- Calculei todos os meus passos.
- Para não ser molestado.
- Jamais procurei os defeitos do próximo.
- Contudo, não lhe aproveitou os bons exemplos.
- Evitei o contato com todas as pessoas viciadas.
- Atendendo ao comodismo.
- Vivi em minha casa preocupado em não ser percalço na estrada alheia.
- Simplesmente para não ser chamado a tarefa de auxílio.
Anésio, desencantado, silenciou, mas o benfeitor esclareceu, sem afetação:
- Meu amigo, meu amigo!
Não basta fugir ao mal.
É preciso fazer o bem.
Você movimenta-se em branco, veste-se em branco, calça em branco e brilha em branco, mas a existência na Terra passou igualmente em branco.
Volte e viva!
Angustiado, Anésio perdeu o próprio equilíbrio e rolou da Altura na direção da Terra.
Pretendia viver nas Esferas Superiores, respirar o clima dos anjos, alçar-se às estrelas e comungar a presença do Cristo - explicou ao agente espiritual que o atendia ao policiamento da passagem para os excelsos Planos da Espiritualidade.
O zeloso funcionário, contudo, embora demonstrasse profundo respeito para com a sua apresentação, submeteu-o a longo teste, findo o qual, não obstante desapontado, explicou que lhe não seria possível avançar.
Faltavam-lhe requisitos para maior ascensão.
- Eu? Eu? - gaguejou Anésio, aflito.
- Como pode ser isso?
Fui na Terra um homem que observou todas as regras do Santo Caminho.
- Apesar de tudo. - falou o fiscal, reticencioso.
- Não me conformo, não me conformo! - reclamou o candidato à glória divina.
E sacando do bolso uma lista, exclamou agastado:
- Pensando na hipótese de alguma desconsideração, resumi em dez itens o meu procedimento irrepreensível no mundo.
E leu para o benfeitor calmo e atento:
- Respeitei todas as religiões.
- Cultivei o dom da prece.
- Acreditei no poder da caridade.
- Nunca aborreci os meus semelhantes.
- Confiei sempre no melhor
- Calei toda palavra ofensiva ou desrespeitosa.
- Calculei todos os meus passos.
- Jamais procurei os defeitos do próximo.
- Evitei o contato com todas as pessoas viciadas.
- Vivi em minha casa preocupado em não ser percalço na estrada alheia.
O mordomo da Grande Porta, no entanto, sorriu e comentou:
- Fraga, você leu as afirmações, esquecendo as demonstrações.
- Como assim?
O amigo paciente apanhou a ficha e esclareceu que o Plano
Espiritual possuía também apontamentos para confronto e solicitou-lhe a releitura da lista.
E seguiu-se curioso diálogo entre os dois.
Principiou Anésio:
- Respeitei todas as religiões.
E o examinador acentuou, conferindo as anotações:
- Mas não serviu a nenhuma.
- Cultivei o dom da prece.
- Somente em seu próprio favor.
- Acreditei no poder da caridade.
- Todavia, não a praticou.
- Nunca aborreci os meus semelhantes.
- Entretanto, não auxiliou a quem quer que fosse.
- Confiei sempre no melhor.
- Mas apenas em seu benefício.
- Calei toda palavra ofensiva ou desrespeitosa.
- Não se lembrou, porém, de falar aquelas que pudessem amparar os necessitados de consolo e esperança.
- Calculei todos os meus passos.
- Para não ser molestado.
- Jamais procurei os defeitos do próximo.
- Contudo, não lhe aproveitou os bons exemplos.
- Evitei o contato com todas as pessoas viciadas.
- Atendendo ao comodismo.
- Vivi em minha casa preocupado em não ser percalço na estrada alheia.
- Simplesmente para não ser chamado a tarefa de auxílio.
Anésio, desencantado, silenciou, mas o benfeitor esclareceu, sem afetação:
- Meu amigo, meu amigo!
Não basta fugir ao mal.
É preciso fazer o bem.
Você movimenta-se em branco, veste-se em branco, calça em branco e brilha em branco, mas a existência na Terra passou igualmente em branco.
Volte e viva!
Angustiado, Anésio perdeu o próprio equilíbrio e rolou da Altura na direção da Terra.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
O HOMEM E O BOI
Um anjo de longínquo sistema, interessado em conhecer os variados
aspectos e graus da razão na inteligência Universal, pousou num
campo terrestre e, surpreso ante a paisagem, aí encontrou um homem e
um boi. Admirou as flores silvestres, fixou os horizontes coloridos de
sol e rejubilou-se com a passagem do vento brando, rendendo graças ao
Supremo Senhor. Como não dispunha, todavia, de mais larga parcela de
tempo, passou à observação direta dos seres que povoavam o solo,
aferindo o progresso do entendimento no orbe que visitava. Examinou as
pupilas do homem e descobriu a inquietação da maldade. Sondou os olhos
do boi e encontrou calma e paz. Usando o critério que lhe era
particular, conclui de si para consigo que o boi era superior ao
homem. Consolidou a impressão quando, para experimentar, pediu
mentalmente aos dois trabalhassem em silêncio. O animal respondeu com
perfeição, movimentando-se, humilde, mas o companheiro bípede gritou,
espetacularmente, proferindo nomes feios que fariam corar uma pedra.
Um tanto alarmado, o anjo recomendou paciência. O educado bisneto da
selva continuou trabalhando, imperturbável e tolerante. Todavia, o
irrequieto descendente de Adão estalou um chicote, ferindo as ancas do
colaborador de quatro patas. Acabrunhado agora, diante da cena triste,
o sublime embaixador pediu atitudes de sacrifício. O servo bovino
obedeceu, sem qualquer relutância, revelando indiscutível interesse em
ser útil, distraído das próprias chagas. O administrador humano,
contudo, redobrou a crueldade, recorrendo ao ferrão para dilacerar
lhe, ainda mais, a carne sanguinolenta... Sensibilizadíssimo, o fiscal
celeste anotou o que supôs conveniente aos fins que o traziam e
afastou-se, preocupado. Não atravessara grande distância e encontrou
uma vaca em laço forte, com outro homem a ordenhá-la. Sob impressão
indefinível, emitiu apelos à renúncia. A mãe bovina atendeu com
resignação heroica, prosseguindo firme na posição de quem sabia
sacrificar-se, mas o ordenhador, antes que o emissário de cima os
analisasse, de perto, porque certa mosca lhe fustigava o nariz,
esbofeteou o úbere da vaca, desabafando-se. O funcionário dos altos
céus, compadecido, acariciou a vítima que se movimentou alguns
centímetros, agradavelmente sensibilizada. O tratador, porém, berrou
desvairado, caluniando-a... - Queres escoicear-me, não é? - gritou,
diabólico. Ergueu-se lesto, deu alguns passos, sacou de bengala
rústica e esbordoou-lhe os chifres. Emocionado, o anjo vivificou as
energias da vaca, aplicando o seu magnetismo divino, rogou para ela as
bênçãos do Altíssimo, empregou forças de coação no agressor,
conferindo-lhe salutar dor de cabeça, efetuou os registros que
desejava e retirou-se. Prestes a desferir voo, firmamento a fora,
encontrou um gênio sublime da hierarquia terrena. Cumprimentaram-se,
fraternos, e o fiscal divino comentou a beleza da paisagem. Não
ocultou, porém, a surpresa de que se possuía. Relacionou os objetivos
que o obrigaram a parar alguns minutos na Terra e rematou para o irmão
na pureza e na virtude: - Estou satisfeito com a elevação sentimental
das criaturas superiores do Planeta. Cultivam a generosidade,
renunciam no momento oportuno, trabalham sem lamentações e, sobretudo,
auxiliam, com invulgar serenidade, os inferiores. O anjo da ordem
terrestre silenciou, espantado por ouvir tão rasgado elogio aos
homens. O outro, no entanto, prosseguiu: - Tive ocasião de presenciar
comovedores testemunhos. Pesa-me confessá-lo, porém: não posso
concordar com a posição dos seres mais nobres da terra, que se
movimentam ainda sobre quatro pés, quando certo animal feroz, que os
acompanha, agressivo, já detém a leveza do bípede. Naturalmente, sabe
o Altíssimo o motivo pelo qual individualidades tão distintas aqui se
encontram, unidas para a evolução em comum... Tenho, contudo, o
propósito de apresentar um relatório minucioso às autoridades divinas,
a fim de modificarmos o quadro reinante. Assinalando-lhe os conceitos,
o companheiro solicitou explicações mais claras. O anjo estrangeiro
convidou-o a verificações diretas. O protetor da Terra, desapontado,
esclareceu, por sua vez, ser diversa a situação: o bípede é na crosta
Planetária o Rei da inteligência, guardando consigo a láurea da
compreensão, sendo o boi simples candidato ao raciocínio,
absolutamente entregue ao livre-arbítrio do controlador do solo.
Acentuou que, não obstante operoso e humilde, o cooperador bovino
gastava a existência servindo para o bem, e acabava dando os costados
no matadouro, para que os homens lhe comessem as vísceras... O
forasteiro dos céus mais altos, sem dissimular o assombro, considerou:
- Então, o problema é muito pior... Pensou, pensou e aduziu:
- Jamais encontrei um planeta onde a razão estivesse tão degradada.
Despediu-se do colega, preparou o afastamento definitivo sem mais
delonga e concluiu: - Apresentarei relatório diferente. Mas ainda não
se sabe se o anjo foi pedir medidas ao Trono Eterno para que os bois
levantem as patas dianteiras, de modo a copiarem o passo de um herói
humano, ou foi rogar providências aos Poderes Celestiais a fim de que
os homens desçam as mãos e andem de quatro, à maneira dos bois...
aspectos e graus da razão na inteligência Universal, pousou num
campo terrestre e, surpreso ante a paisagem, aí encontrou um homem e
um boi. Admirou as flores silvestres, fixou os horizontes coloridos de
sol e rejubilou-se com a passagem do vento brando, rendendo graças ao
Supremo Senhor. Como não dispunha, todavia, de mais larga parcela de
tempo, passou à observação direta dos seres que povoavam o solo,
aferindo o progresso do entendimento no orbe que visitava. Examinou as
pupilas do homem e descobriu a inquietação da maldade. Sondou os olhos
do boi e encontrou calma e paz. Usando o critério que lhe era
particular, conclui de si para consigo que o boi era superior ao
homem. Consolidou a impressão quando, para experimentar, pediu
mentalmente aos dois trabalhassem em silêncio. O animal respondeu com
perfeição, movimentando-se, humilde, mas o companheiro bípede gritou,
espetacularmente, proferindo nomes feios que fariam corar uma pedra.
Um tanto alarmado, o anjo recomendou paciência. O educado bisneto da
selva continuou trabalhando, imperturbável e tolerante. Todavia, o
irrequieto descendente de Adão estalou um chicote, ferindo as ancas do
colaborador de quatro patas. Acabrunhado agora, diante da cena triste,
o sublime embaixador pediu atitudes de sacrifício. O servo bovino
obedeceu, sem qualquer relutância, revelando indiscutível interesse em
ser útil, distraído das próprias chagas. O administrador humano,
contudo, redobrou a crueldade, recorrendo ao ferrão para dilacerar
lhe, ainda mais, a carne sanguinolenta... Sensibilizadíssimo, o fiscal
celeste anotou o que supôs conveniente aos fins que o traziam e
afastou-se, preocupado. Não atravessara grande distância e encontrou
uma vaca em laço forte, com outro homem a ordenhá-la. Sob impressão
indefinível, emitiu apelos à renúncia. A mãe bovina atendeu com
resignação heroica, prosseguindo firme na posição de quem sabia
sacrificar-se, mas o ordenhador, antes que o emissário de cima os
analisasse, de perto, porque certa mosca lhe fustigava o nariz,
esbofeteou o úbere da vaca, desabafando-se. O funcionário dos altos
céus, compadecido, acariciou a vítima que se movimentou alguns
centímetros, agradavelmente sensibilizada. O tratador, porém, berrou
desvairado, caluniando-a... - Queres escoicear-me, não é? - gritou,
diabólico. Ergueu-se lesto, deu alguns passos, sacou de bengala
rústica e esbordoou-lhe os chifres. Emocionado, o anjo vivificou as
energias da vaca, aplicando o seu magnetismo divino, rogou para ela as
bênçãos do Altíssimo, empregou forças de coação no agressor,
conferindo-lhe salutar dor de cabeça, efetuou os registros que
desejava e retirou-se. Prestes a desferir voo, firmamento a fora,
encontrou um gênio sublime da hierarquia terrena. Cumprimentaram-se,
fraternos, e o fiscal divino comentou a beleza da paisagem. Não
ocultou, porém, a surpresa de que se possuía. Relacionou os objetivos
que o obrigaram a parar alguns minutos na Terra e rematou para o irmão
na pureza e na virtude: - Estou satisfeito com a elevação sentimental
das criaturas superiores do Planeta. Cultivam a generosidade,
renunciam no momento oportuno, trabalham sem lamentações e, sobretudo,
auxiliam, com invulgar serenidade, os inferiores. O anjo da ordem
terrestre silenciou, espantado por ouvir tão rasgado elogio aos
homens. O outro, no entanto, prosseguiu: - Tive ocasião de presenciar
comovedores testemunhos. Pesa-me confessá-lo, porém: não posso
concordar com a posição dos seres mais nobres da terra, que se
movimentam ainda sobre quatro pés, quando certo animal feroz, que os
acompanha, agressivo, já detém a leveza do bípede. Naturalmente, sabe
o Altíssimo o motivo pelo qual individualidades tão distintas aqui se
encontram, unidas para a evolução em comum... Tenho, contudo, o
propósito de apresentar um relatório minucioso às autoridades divinas,
a fim de modificarmos o quadro reinante. Assinalando-lhe os conceitos,
o companheiro solicitou explicações mais claras. O anjo estrangeiro
convidou-o a verificações diretas. O protetor da Terra, desapontado,
esclareceu, por sua vez, ser diversa a situação: o bípede é na crosta
Planetária o Rei da inteligência, guardando consigo a láurea da
compreensão, sendo o boi simples candidato ao raciocínio,
absolutamente entregue ao livre-arbítrio do controlador do solo.
Acentuou que, não obstante operoso e humilde, o cooperador bovino
gastava a existência servindo para o bem, e acabava dando os costados
no matadouro, para que os homens lhe comessem as vísceras... O
forasteiro dos céus mais altos, sem dissimular o assombro, considerou:
- Então, o problema é muito pior... Pensou, pensou e aduziu:
- Jamais encontrei um planeta onde a razão estivesse tão degradada.
Despediu-se do colega, preparou o afastamento definitivo sem mais
delonga e concluiu: - Apresentarei relatório diferente. Mas ainda não
se sabe se o anjo foi pedir medidas ao Trono Eterno para que os bois
levantem as patas dianteiras, de modo a copiarem o passo de um herói
humano, ou foi rogar providências aos Poderes Celestiais a fim de que
os homens desçam as mãos e andem de quatro, à maneira dos bois...
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
LIÇÃO EM JERUSALÉM
Muito significativa a entrada gloriosa de Jesus em Jerusalém, de que o texto evangélico nos fornece a informarão. A cidade conhecia-o, desde a sua primeira visita ao Templo, e muita gente, quando de sua passagem por ali, acorria, pressurosa, a fim de lhe ouvir as pregações. O povo judeu suspirava por alguém, com bastante autoridade, que o libertasse dos opressores. Não seria tempo da redenção de Israel? A raça escolhida experimentava severas humilhações. O romano orgulhoso apertava a Palestina nos braços tirânicos. For isso, Jesus simbolizava a renovação, a promessa. Quem operara prodígios iguais aos dele? Profeta algum atingira aquelas culminâncias. A ressurreição de Lázaro, enfaixado no túmulo, com sinais evidentes de decomposição cadavérica, espantava os mais ilustres descendentes de Abraão. Nem Moisés, o legislador inesquecível, conseguira realização daquela natureza. E o povo, naqueles dias de festa tradicional, se dispôs a homenageá-lo, em regra. Receberia o profeta com demonstrações diferentes. Mostraria aos prepostos de César que Jerusalém não renunciava aos propósitos de libertação, ciosa de sua autonomia, e, agora, mais que nunca, possuía um chefe político à altura dos acontecimentos.
Jesus, certamente, não atenderia às imposições dos sacerdotes e nem se submeteria ao suborno, ante as promessas douradas dos áulicos imperiais.
Em vista disso, quando o Mestre saiu de Betânia, a caminho da cidade, alinharam-se fileiras de populares, saudando-o festivamente.
Anciães de barbas encanecidas acompanhavam o coro dos jovens: – “Hosanas ao filho de David!” As mulheres gritavam, entusiasticamente, amparando criancinhas a sustentarem, com graça, verdes ramos de palmeira.
Os discípulos, ladeando o Mestre, sentiam o efêmero júbilo provocado pelo mentiroso incenso da multidão. Os fiéis galileus, guindados inesperadamente ao cume da popularidade, inclinavam-se com desvanecimento, embriagados pelo triunfo.
De espaço a espaço, esse ou aquele patriarca fazia sinais a Pedro, Filipe ou João, convidando-os a se pronunciarem discretamente:
– Quando se manifestará o Messias?
Os interpelados assumiam atitude de orgulhosa prudência e respondiam, quase sempre, a mesma coisa:
– Estamos certos de que a homenagem de hoje é decisiva e o Messias dar-nos-á a conhecer o plano das nossas reivindicações.
Jesus agradecia aos manifestantes de Jerusalém com o olhar, mostrando, porém, melancólicos sorrisos.
Demonstrando compreender a situação, logo após convocou os discípulos para uma reunião mais íntima, em que lhes diria algo de grave.
Interpelados por alguns amigos, Tiago e João, filhos de Zebedeu, informaram quanto ao anúncio do Mestre. Discutiria as questões do presente e do futuro, e, possìvelmente, seria mais claro nas definições políticas da ação renovadora.
Por esse motivo, enquanto o Cristo e os companheiros tornavam a refeição frugal do cenáculo, verdadeira multidão apinhava-se, discreta, nas adjacências. O povo aguardava informações do colégio apostólico, entre a ansiedade e a esperança.
Finda a reunião, e enquanto Jesus e Simão Pedro se demoravam em confidências, seis discípulos vieram, cautelosos, à via pública. A fisionomia deles denunciava preocupações e desencanto.
Começaram os comentários, entre os intelectualistas de Jerusalém e os pescadores da Galiléia.
– Que disse o profeta? – perguntou o patriarca, chefe daquele movimento de curiosidade – explicou-se, afinal?
– Sim – esclareceu Filipe com benevolência.
– E a base do programa de nossa restauração política e social?
– Recomendou o Senhor para que o maior seja servo do menor, que todos deveremos amar-nos uns aos outros.
– O sinal do movimento? – indagou o ancião de olhos lúcidos.
– Estará justamente no amor e no sacrifício de cada um de nós – replicou o apóstolo, humilde.
– Dirigir-se-á imediatamente a César, fundamentando o necessário protesto?
– Disse-nos para confiarmos no Pai e crermos também nele, nosso Mestre e Senhor, – Não se fará, então, exigência alguma?
– exclamou o patriarca, irritado.
– Aconselhou-nos a pedir ao Céu o que pôr necessário e afirmou que seremos atendidos em seu nome – explicou Filipe, sem se perturbar.
Entreolharam-se, admirados os circunstantes.
– E a nossa posição? – resmungou o velho – não somos o povo escolhido da Terra?
Muito calmo, o apóstolo esclareceu:
– Disse o Mestre que não somos do mundo e por isso o mundo nos aborrecerá, até que o seu Reino seja estabelecido.
Espoucaram as primeiras gargalhadas.
– Mas o profeta – continuou o israelita exigente – não assinou algum documento, nem se referiu a qualquer compromisso com as autoridades?
– Não – respondeu Filipe, sincero ingênuo –, apenas lavou os pés dos companheiros.
Oh! para os filhos vaidosos de Jerusalém era demais. Surgiram risos e protestos.
– Não te disse, Jafet? – falou um antigo fariseu ao patriarca. – Tudo isso é uma farsa.
Um moço pedante afiançou, depois de detestável risada:
– Muito boa, esta aventura dos pescadores!
Dentro de alguns minutos, via-se a rua deserta.
Desde essa hora, compreendendo que Jesus cumpria, acima de tudo, a Vontade de Deus, longe de qualquer disputa com os homens, a multidão abandonou-o. Os discípulos, reconhecendo também que êle desprezava todos os cálculos de probabilidade do triunfo político, retraíram-se, desapontados. E, desde esse instante, a perseguição do Sinédrio tomou vulto e o Messias, sozinho com a sua dor e com a sua lealdade, experimentou a prisão, o abandono, a injustiça, o açoite, a ironia e a crucificação.
Essa, foi uma das ultimas lições d’Êle, entre as criaturas, dando-nos a conhecer que é muito fácil cantar hosanas a Deus, mas muito difícil cumprir-lhe a Divina Vontade, com o sacrifício de nós mesmos.
Jesus, certamente, não atenderia às imposições dos sacerdotes e nem se submeteria ao suborno, ante as promessas douradas dos áulicos imperiais.
Em vista disso, quando o Mestre saiu de Betânia, a caminho da cidade, alinharam-se fileiras de populares, saudando-o festivamente.
Anciães de barbas encanecidas acompanhavam o coro dos jovens: – “Hosanas ao filho de David!” As mulheres gritavam, entusiasticamente, amparando criancinhas a sustentarem, com graça, verdes ramos de palmeira.
Os discípulos, ladeando o Mestre, sentiam o efêmero júbilo provocado pelo mentiroso incenso da multidão. Os fiéis galileus, guindados inesperadamente ao cume da popularidade, inclinavam-se com desvanecimento, embriagados pelo triunfo.
De espaço a espaço, esse ou aquele patriarca fazia sinais a Pedro, Filipe ou João, convidando-os a se pronunciarem discretamente:
– Quando se manifestará o Messias?
Os interpelados assumiam atitude de orgulhosa prudência e respondiam, quase sempre, a mesma coisa:
– Estamos certos de que a homenagem de hoje é decisiva e o Messias dar-nos-á a conhecer o plano das nossas reivindicações.
Jesus agradecia aos manifestantes de Jerusalém com o olhar, mostrando, porém, melancólicos sorrisos.
Demonstrando compreender a situação, logo após convocou os discípulos para uma reunião mais íntima, em que lhes diria algo de grave.
Interpelados por alguns amigos, Tiago e João, filhos de Zebedeu, informaram quanto ao anúncio do Mestre. Discutiria as questões do presente e do futuro, e, possìvelmente, seria mais claro nas definições políticas da ação renovadora.
Por esse motivo, enquanto o Cristo e os companheiros tornavam a refeição frugal do cenáculo, verdadeira multidão apinhava-se, discreta, nas adjacências. O povo aguardava informações do colégio apostólico, entre a ansiedade e a esperança.
Finda a reunião, e enquanto Jesus e Simão Pedro se demoravam em confidências, seis discípulos vieram, cautelosos, à via pública. A fisionomia deles denunciava preocupações e desencanto.
Começaram os comentários, entre os intelectualistas de Jerusalém e os pescadores da Galiléia.
– Que disse o profeta? – perguntou o patriarca, chefe daquele movimento de curiosidade – explicou-se, afinal?
– Sim – esclareceu Filipe com benevolência.
– E a base do programa de nossa restauração política e social?
– Recomendou o Senhor para que o maior seja servo do menor, que todos deveremos amar-nos uns aos outros.
– O sinal do movimento? – indagou o ancião de olhos lúcidos.
– Estará justamente no amor e no sacrifício de cada um de nós – replicou o apóstolo, humilde.
– Dirigir-se-á imediatamente a César, fundamentando o necessário protesto?
– Disse-nos para confiarmos no Pai e crermos também nele, nosso Mestre e Senhor, – Não se fará, então, exigência alguma?
– exclamou o patriarca, irritado.
– Aconselhou-nos a pedir ao Céu o que pôr necessário e afirmou que seremos atendidos em seu nome – explicou Filipe, sem se perturbar.
Entreolharam-se, admirados os circunstantes.
– E a nossa posição? – resmungou o velho – não somos o povo escolhido da Terra?
Muito calmo, o apóstolo esclareceu:
– Disse o Mestre que não somos do mundo e por isso o mundo nos aborrecerá, até que o seu Reino seja estabelecido.
Espoucaram as primeiras gargalhadas.
– Mas o profeta – continuou o israelita exigente – não assinou algum documento, nem se referiu a qualquer compromisso com as autoridades?
– Não – respondeu Filipe, sincero ingênuo –, apenas lavou os pés dos companheiros.
Oh! para os filhos vaidosos de Jerusalém era demais. Surgiram risos e protestos.
– Não te disse, Jafet? – falou um antigo fariseu ao patriarca. – Tudo isso é uma farsa.
Um moço pedante afiançou, depois de detestável risada:
– Muito boa, esta aventura dos pescadores!
Dentro de alguns minutos, via-se a rua deserta.
Desde essa hora, compreendendo que Jesus cumpria, acima de tudo, a Vontade de Deus, longe de qualquer disputa com os homens, a multidão abandonou-o. Os discípulos, reconhecendo também que êle desprezava todos os cálculos de probabilidade do triunfo político, retraíram-se, desapontados. E, desde esse instante, a perseguição do Sinédrio tomou vulto e o Messias, sozinho com a sua dor e com a sua lealdade, experimentou a prisão, o abandono, a injustiça, o açoite, a ironia e a crucificação.
Essa, foi uma das ultimas lições d’Êle, entre as criaturas, dando-nos a conhecer que é muito fácil cantar hosanas a Deus, mas muito difícil cumprir-lhe a Divina Vontade, com o sacrifício de nós mesmos.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
No Caminho do Amor
Em Jerusalém, nos arredores do Templo, adornada mulher encontrou um nazareno, de olhos fascinantes e lúcidos, de cabelos delicados e melancólicos sorriso, e fixou-o estranhamente.
Arrebatada na onda de simpatia a irradiar-se dele, corrigiu as dobras da túnica muito alva; colocou no olhar indizível expressão de doçura e, deixando perceber, nos meneios do corpo frágil, a visível paixão que a possuíra de súbito, abeirou-se do desconhecido e falou, ciciante:
-Jovem, as flores de Séforis encheram-me a ânfora do coração com deliciosos perfumes. Tenho felicidade ao teu dispor, em minha loja de essências finas...
Indicou extensa vila, cercada de rosas, à sombra de arvoredo acolhedor, e ajuntou:
-Inúmeros peregrinos cansados me buscam a procura do repouso que reconforta. Em minha primavera juvenil, encontram o prazer que representa a coroa da vida. E' que o lírio do vale não tem a carícia dos meus braços e a romã saborosa não possui o mel de meus lábios. Vem e vê! Dar-te-ei leito macio, tapetes dourados e vinho capitoso ... Acariciar-te-ei a fronte abatida e curar-te-ei o cansaço da viagem longa! Descansarás teus pés em água de nardo e ouvirás, feliz, as harpas e os alaúdes de meu jardim. Tenho a meu serviço músicos e dançarinas, exercitados em palácios ilustres!...
Ante a incompreensível mudez do viajor, tornou, súplice, depois de leve pausa:
-Jovem, porque não respondes? Descobri em teus olhos diferentes chama e assim procedo por amar-te. Tenho sede de afeição que me complete a vida. Atende! atende!...
Ele parecia não perceber a vibração febril com que semelhantes palavras eram pronunciadas e, notando-lhe a expressão fisionômica indefinível, a vendedora de essências acrescentou uma tanto agastada:
-Não virás?
Constrangido por aquele olhar esfogueado, o forasteiro apenas murmurou:
-Agora, não. Depois, no entanto, quem sabe?!...
A mulher, ajaezada de enfeites, sentindo-se desprezada, prorrompeu em sarcasmos e partiu.
Transcorridos dois anos, quando Jesus levantava paralítico, ao pé do Tanque de Betesda, venerável anciã pediu-lhe socorro para infeliz criatura, atenazada de sofrimento.
O Mestre seguiu-a, sem hesitar.
Num pardieiro denegrido, um corpo chagado exalava gemido angustioso.
A disputada marcadora de aromas ali se encontrava carcomida de úlceras, de pele enegrecida e rosto disforme. Feridas sanguinolentas pontilhavam-lhe a carne, agora semelhante ao esterco da terra. Exceção dos olhos profundos e indagadores, nada mais lhe restava da feminilidade antiga. Era uma sombra leprosa, de que ninguém ousava aproximar.
Fitou o Mestre e reconheceu-o.
Era o mesmo mancebo nazareno, de porte sublime e atraente expressão.
O Cristo estendeu-lhe os braços, tocados de intraduzível ternura e convidou:
-Vem a mim, tu que sofres! Na Casa de Meu Pai, nunca se extingue a esperança.
A interpelada quis recuar, conturbada de assombro, mas não conseguiu mover os próprios dedos, vencida de dor.
O Mestre, porém, transbordando compaixão, prosternou-se fraternal, e conchegou-a, de manso...
A infeliz reuniu todas as forças que lhe sobravam e perguntou, em voz reticenciosa e dorida
-Tu?... o Messias nazareno?... O Profeta que cura, reanima e alivia?!... Que viste fazer, junto de mulher tão miserável quanto eu?
Ele, contudo, sorriu benevolente, retrucando apenas:
-Agora, venho satisfazer-te os apelos.
E, recordando-lhe a palavra do primeiro encontro, acentuou, compassivo:
-Descubro em teus olhos diferentes chama e assim procedo por amar-te.
Arrebatada na onda de simpatia a irradiar-se dele, corrigiu as dobras da túnica muito alva; colocou no olhar indizível expressão de doçura e, deixando perceber, nos meneios do corpo frágil, a visível paixão que a possuíra de súbito, abeirou-se do desconhecido e falou, ciciante:
-Jovem, as flores de Séforis encheram-me a ânfora do coração com deliciosos perfumes. Tenho felicidade ao teu dispor, em minha loja de essências finas...
Indicou extensa vila, cercada de rosas, à sombra de arvoredo acolhedor, e ajuntou:
-Inúmeros peregrinos cansados me buscam a procura do repouso que reconforta. Em minha primavera juvenil, encontram o prazer que representa a coroa da vida. E' que o lírio do vale não tem a carícia dos meus braços e a romã saborosa não possui o mel de meus lábios. Vem e vê! Dar-te-ei leito macio, tapetes dourados e vinho capitoso ... Acariciar-te-ei a fronte abatida e curar-te-ei o cansaço da viagem longa! Descansarás teus pés em água de nardo e ouvirás, feliz, as harpas e os alaúdes de meu jardim. Tenho a meu serviço músicos e dançarinas, exercitados em palácios ilustres!...
Ante a incompreensível mudez do viajor, tornou, súplice, depois de leve pausa:
-Jovem, porque não respondes? Descobri em teus olhos diferentes chama e assim procedo por amar-te. Tenho sede de afeição que me complete a vida. Atende! atende!...
Ele parecia não perceber a vibração febril com que semelhantes palavras eram pronunciadas e, notando-lhe a expressão fisionômica indefinível, a vendedora de essências acrescentou uma tanto agastada:
-Não virás?
Constrangido por aquele olhar esfogueado, o forasteiro apenas murmurou:
-Agora, não. Depois, no entanto, quem sabe?!...
A mulher, ajaezada de enfeites, sentindo-se desprezada, prorrompeu em sarcasmos e partiu.
Transcorridos dois anos, quando Jesus levantava paralítico, ao pé do Tanque de Betesda, venerável anciã pediu-lhe socorro para infeliz criatura, atenazada de sofrimento.
O Mestre seguiu-a, sem hesitar.
Num pardieiro denegrido, um corpo chagado exalava gemido angustioso.
A disputada marcadora de aromas ali se encontrava carcomida de úlceras, de pele enegrecida e rosto disforme. Feridas sanguinolentas pontilhavam-lhe a carne, agora semelhante ao esterco da terra. Exceção dos olhos profundos e indagadores, nada mais lhe restava da feminilidade antiga. Era uma sombra leprosa, de que ninguém ousava aproximar.
Fitou o Mestre e reconheceu-o.
Era o mesmo mancebo nazareno, de porte sublime e atraente expressão.
O Cristo estendeu-lhe os braços, tocados de intraduzível ternura e convidou:
-Vem a mim, tu que sofres! Na Casa de Meu Pai, nunca se extingue a esperança.
A interpelada quis recuar, conturbada de assombro, mas não conseguiu mover os próprios dedos, vencida de dor.
O Mestre, porém, transbordando compaixão, prosternou-se fraternal, e conchegou-a, de manso...
A infeliz reuniu todas as forças que lhe sobravam e perguntou, em voz reticenciosa e dorida
-Tu?... o Messias nazareno?... O Profeta que cura, reanima e alivia?!... Que viste fazer, junto de mulher tão miserável quanto eu?
Ele, contudo, sorriu benevolente, retrucando apenas:
-Agora, venho satisfazer-te os apelos.
E, recordando-lhe a palavra do primeiro encontro, acentuou, compassivo:
-Descubro em teus olhos diferentes chama e assim procedo por amar-te.
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